Psicanálise e a mulher da bandeja de prata

A teoria freudiana olhada retroativamente recebe ataques relativos às condições históricas da época, apesar de ser consenso a grande quebra paradigmática que Freud em 1900 propôs não apenas a medicina, mas a cultura. Facetas da teoria são criticadas pela falta de amplitude no olhar. Uma delas é a questão de gênero, em que Freud encontra resistências até mesmo dentro do movimento psicanalítico. Algumas formulações são classificadas como atravessamentos machistas em sua teoria, exemplificado na centralidade do falo, e sua visão masculina sobre a sexualidade e castração.


Porém, neste texto gostaria de explorar outro enfoque também muito discutido entre os teóricos e estudiosos, que é a formulação da Psicanálise como um marco do feminino. A íntima relação desta teoria com a mulher.


Freud percorreu um tortuoso percurso metodológico até chegar no método final da associação livre, ao longo desta caminhada uma das grandes qualidades de Freud foi a humildade em saber ouvir. A associação livre é regra fundamental da técnica psicanalítica, que consiste em convidar o paciente a falar o mais livre que puder, deixando de lado possíveis censuras. Assim, cabe ao analista não mais um papel de detentor do saber, de protagonismo do tratamento, ele passa a ocupar um espaço reservado, que permita que o sujeito e desejos do paciente possam aparecer.


Durante os atendimentos à Emmy von N., que Freud aplicava pressões em locais do corpo, enquanto realizava diálogos catárticos durante estado hipnótico da paciente, recebeu a seguinte contestação: “Fique quieto! Não me toque!”. Outro atendimento paradigmático é de Cäcilie M, que não era suscetível à hipnose e obrigou Freud a conduzir (ou deixar conduzir) o atendimento apenas pela fala, permitindo uma nova perspectiva metodológica aos casos de histeria, para além da hipnose. Ela pode ser considerada a primeira mulher “psicanalisada”; Roudinesco, importante historiadora da psicanálise, coloca Cäcilie como a “mestra de Freud” que entregou o inconsciente “em uma bandeja de prata”.


As inovações teóricas no percurso freudiano são diretamente relacionadas com suas pacientes, que lentamente mostraram a ele o caminho sinuoso do inconsciente e do desejo. Mas isto foi possível graças a uma posição ética e política de Freud perante seus pacientes. Acerca do caso Dora, por exemplo, Geraldino Netto, eminente psicanalista brasileiro, escreve em seu livro “Doze lições sobre Freud e Lacan”:


“Quando Philipp [pai de Dora] leva sua filha para o tratamento com o doutor, esperava que este se tornasse seu cúmplice, concordasse com ele e se dispusesse a corrigir as supostas “fantasias sexuais” da moça. Isto é, um “negócio” entre homens. Mas, como a psicanálise não se propõe a domesticar ninguém, Freud seguiu o caminho oposto, e foi buscar, nas profundezas subjetivas do inconsciente de Dora, as raízes de tanta desordem e sofrimento” (p.45)


Portanto, Freud rompeu com o discurso médico dominante, majoritariamente masculino, que colocava a mulher histérica, como louca, impostora, mentirosa; e propôs uma teoria que pudesse escutar o desejo e o que mais essas mulheres tivessem a falar. Elas não mais precisavam se expressar pelo sintoma, mas podiam fazer- se entender pela palavra. Freud participa da descolagem da histeria como um fenômeno meramente feminino e, a partir de suas formulações, quebra com a separação estanque entre normal e patológico.


Por Guilherme Arthur Possagnoli