Pensar o masculino

Quando sou interpelado à falar sobre questões sociais, da ordem das discussões de gênero, masculinidades e machismo, por exemplo, eu me lembro de um trecho de música de Macklemore, que diz, "parece que estamos mais preocupados em sermos chamados de racistas do que de fato com o racismo".


Acredito que temos, primeiro, que compreender nosso papel enquanto agentes ativos nas disputas sociais e políticas, para podermos, então, repensar se desejamos, ou não, continuar exercendo essa posição.


A visão estrutural do machismo, por exemplo, nos ajuda a enxergar as tramas da desigualdade de gênero de forma mais abrangente e talvez menos agressiva ao ego, pois, por mais que reafirmamos que somos “bem resolvidos”, é impossível não notar que ao nos sentirmos ameaçados - isso vale para o âmbito psicológico também - tendemos a adotar o mecanismo de luta ou fuga.


A visão estrutural permite percebemos que nossa posição e ação são baseadas no lugar que ocupamos nessa estrutura: rodas de amigos, instituições religiosas, instituições de ensino, atividades de lazer, condição financeira, idade e por aí vai. Podemos acreditar piamente que nossa posição é fruto de nossa reflexão e que a mesma é uma decisão totalmente identificada com todo o nosso ser, mas é difícil imaginar que, se tivéssemos nascido há 200 anos atrás, teríamos essa mesma visão. É até difícil pensar se esse “ser” poderia ser chamado de “nós” ou "eu".


Podemos, então, perceber nossa posição na estrutura social, que sim, é racista; sim, é machista; sim, é classista; sim, é homofóbica; enfim, cheia de preconceitos que são orientados, em geral, do topo para a base da pirâmide de poder social. E se queremos, realmente, entender nossa posição (enquanto sociedade também), creio que devemos olhar para essas coisas com mais calma, menos julgamentos morais, saltos interpretativos e conclusões apressadas. O primeiro movimento deve ser para dentro.


Quando, por exemplo, rotulamos alguma parte de nós de mau ou errada, nossa tendência não é olhá-la com calma, mas antes, excluí-la, invisibilizá-la.


Em psicanálise falamos em recalque, que é o ato de reprimir o que há aí para o inconsciente. Só que o recalcado continua a ter força, só é barrado da lei consciente e evitado, permanecendo fixo e inalterado.


Fala-se hoje muito do discurso político do Bolsonaro ser um “retorno do recalcado”. Creio que aí haja inúmeras reflexões para podermos pensar como, enquanto sociedade, conseguimos alcançar um estado de maior igualdade em seu sentido mais amplo.


Enfim, para o leitor interessado que chegou até o fim dessa associação livre (revisada por um grande companheiro) , compartilho o mesmo conselho que Freud deu aos seus colegas, ao se depararem com a estranheza das ideias de Freud para o status quo da época: se vocês estão realmente preocupados com a verdade, analisem com muita astúcia suas paixões e principalmente suas antipatias.