Melanie Klein, a mulher, e o desejo

Melanie Klein nasceu em 1882, Viena, filha mais nova de quatro irmãos, teve uma infância tumultuada, talvez o principal aspecto seja as sucessivas perdas que sofreu a partir de seus 5 anos, perdeu sua irmã, dois anos depois seu pai faleceu, três anos depois é a vez de seu irmão mais próximo afetivamente morrer.


Aos 21 anos se casa e poucos meses depois engravida, iniciando sua trajetória como mãe, mas não como mulher dona de sua casa. Durante a infância de seus filhos ela sofreu alguns episódios de depressão, em que era recomendado os típicos tratamentos da época, basicamente viagens de repousos, hidroterapias e afins. Sendo enquadrada como uma “doente dos nervos”. Durante as ausências, sua mãe tomava seu papel no cuidado dos filhos e da casa e reforçava a identidade de doente e incapaz, legitimando a importância de sua tutela à vida da filha.


Porém, em 1914, o ano de nascimento do último filho de Melanie, sua mãe morreu. Um evento ambivalente para Klein, pois ao mesmo tempo que representava a libertação de diversas intromissões maternas, a morte representa mais uma perda. Neste mesmo ano, aos 32 anos, entra em contato com o primeiro texto freudiano em sua vida e inicia sua análise com Sándor Ferenczi, um dos principais discípulos de Freud.


Durante umas das sessões Melanie inferiu que Ferenczi havia sugerido que ela iniciasse a observar analiticamente seus filhos. Então ela mergulhou na psicanálise, iniciando com observações de seus filhos durante a infância e já em 1919 apresentou um trabalho na Sociedade Húngara de Psicanálise, a qual tornou-se membro.


Em 1924 iniciou sua segunda análise, agora com Karl Abraham, um dos analistas que gozava de maior respeito intelectual com Freud. Abraham começou a perceber que as observações infantis feitas por Klein condiziam com teorizações psicanalíticas de sua parte, foi uma parceria curta, mas de sucesso. Klein pode prover o suporte prático para Abraham, e este pôde dar credibilidade para Melanie.


Com a morte de Abraham um ano depois e mais uma perda em sua vida, Melanie realiza uma importante mudança em sua vida, a convite de Ernest Jones, muda-se para Londres e consolida-se como a principal escola psicanalítica infantil no país, em contraposição a Anna Freud, filha mais nova de Freud. Protagonizaram, após a mudança dos Freud para Londres, os grandes debates acalorados conhecidos como “as grandes controvérsias”, composto por uma série de textos e dez encontros que visavam decidir basicamente que estava com a razão sobre pontos de discordâncias teórico/práticos, O resultado foi a divisão em três grupos: kleinianos, freudianos e independentes.


Discussões à parte, o tempo elegeu Klein como uma das principais influências e pioneiras nas teorizações da psicanálise infantil, transformando a clínica infantil da época, saindo de um caráter meramente pedagógico e alcançando o viés analítico da clínica infantil.


O objetivo deste texto é contar um pouco da história de Melanie Klein, uma das mais importantes mulheres do movimento psicanalítico, mostrando a surpreendente reviravolta de sua vida. Longe de fazer coro aos discursos neoliberais de meritocracia e superação, que vendem uma pretensa mobilidade social e econômica condicionada ao esforço individual, e que se fazem valer das histórias de exceções, individuais, para tentar provar a universalidade de suas afirmações. Mas para afirmar o DESEJO, a base da clínica psicanalítica. Como afirmou Klein aos 32 anos, após uma história de assujeitamento a normas familiares e discursos médicos, alcançando uma posição de destaque no movimento psicanalítico.


Por Guilherme Arthur Possagnoli