Existe um "Auto"conhecimento?

Se você já fez terapia, talvez saiba que o processo não é tão simples e bonito assim. Isso porque, quanto mais fundo adentramos em nós mesmos, mais nos deparamos com o quanto da nossa família e sociedade carregamos conosco. Esse processo não é cristalino e catártico, afinal, nem toda epifania é agradável. Quanto mais próximo das nossas profundezas navegamos, percebemos o quão entranhado é seu âmago. Talvez o que pensamos ser o essencial de nós seja uma miragem. ⁣

Quantas coisas fazemos que não foram propriamente uma escolha consciente? Você já percebeu que às vezes não sabe o que quer, mas vai descobrindo quando responde uma pergunta, como “O que você vai fazer no verão?”; “O que você procura em um amor?”; “O que vai fazer quando se formar?”.⁣

Talvez haja um denominador comum nas coisas que você escolhe, mas é importante dizer que na maior parte das vezes você nem percebe que fez uma decisão, ou que está diante de uma escolha. Você pode não saber, mas escolheu - e apenas através dos efeitos que você causa no outro e no mundo, que se dá conta do que foi decidido. O processo de conhecimento de si se dá pela relação com o mundo e com o outro. ⁣

Mas têm coisas que já são difíceis de se pensar e passar pela consciência, e ainda mais complicadas de serem faladas para alguém. Talvez por isso a singularidade de um espaço terapêutico, e a falácia do discurso: “Eu não preciso de terapia, já tenho alguém para conversar” - afinal de contas, todas essas pessoas têm um atravessamento, uma demanda, ou uma expectativa de você, que talvez você não perceba, mas que vai limitar o quê e como falar. ⁣

Afinal, não é tão simples se conhecer: se minha própria mensagem vem retroativamente do outro, então talvez o processo de conhecimento não seja tão “auto” assim, e essas fronteiras que delimitam o eu e o outro não sejam tão nítidas quanto imaginamos.⁣