Clínica Psicanalítica

Melhor seria se pudéssemos discorrer sobre a clínica psicanalítica de imediato, mas ao fazer isso, talvez faltaria algo do princípio, seria como tentar dizer algo pela metade. Aqui, contudo, a fala como um todo nos importa e também não se pode fazer pouco caso da história.

Voltemos à origem, portanto.

Esse termo - "clínica" - é antigo, vem do grego "klinikós" e alude à prática médica de inclinar-se sobre o leito para interpretar os sinais do corpo. Pelo menos até determinado período, enquanto inclinava-se, o médico não apenas buscava os sinais do corpo, mas ouvia o paciente, já que o diálogo com o sujeito ao leito era parte do processo para compreender a enfermidade e elaborar um tratamento.

No entanto, essa prática clínica alterou-se por volta do século XVIII. A partir dessa época, a então nascente medicina moderna deixa o plano das explicações e interpretações, substituindo-as pela observação. Inspirada nas ciências naturais, a observação e nomeação das regularidades no corpo tornam-se fundamentos dessa clínica. Se o médico continua a inclinar-se, não é tanto para ouvir o que tem a dizer o paciente, mas para investigar minuciosamente os traços que possam revelar a doença. Assim, basta observar os indícios, os sintomas, estabelecer as possíveis causas e formular um diagnóstico.

A consequência, nem tão óbvia, é que se passa a tratar a doença, e não mais o sujeito. Este pouco sabe de si, já que a sua fala é imprecisa e imprevisível, e não é párea para a verdade do estetoscópio. 

Bem, mas e a psicanálise? 

A clínica psicanalítica compartilha, em parte, dessa tradição, de forma que desenvolveu também uma teoria das causas das patologias (etiologia), uma compreensão dos sinais e sintomas (semiologia) e um conjunto de diagnósticos.

Entretanto, não se reduz a essa clínica que ganha vigor na metade do século XIX, pois do contrário estaria lado a lado com a psiquiatria. Com efeito, de forma alguma a psicanálise ignora os sintomas, muito menos o que se manifesta no corpo, mas não os toma de maneira isolada, como se fossem elementos de uma fórmula para um diagnóstico ou tratamento genéricos. Nem mesmo a noção de cura é relegada na psicanálise, porém não fica atrelada somente à remissão de sintomas.

Assim, apesar de ter alguma aproximação com a tradição moderna, há profundas diferenças, pois a psicanálise recobra algo da clínica pré-moderna e sobre a qual se fundamenta: o sujeito. Nesse sentido, a clínica psicanalítica inclina-se não somente para observar, mas para escutar o sujeito que fala.

O drama da vida, o desejo, o sofrimento daquele que sofre e o desconhecido que emerge na fala compõem o cenário que aparece na clínica psicanalítica. 

Uma das pacientes mais famosas de Freud costumava referir-se ao seu tratamento como "cura pela fala" ou "limpeza de chaminé". Talvez esta seja uma metáfora adequada - quem enxerga apenas o resultado da limpeza pode, por vezes, perder de vista o não tão pouco trabalhoso processo pelo qual passa aquele que se macula e se empenha em tal atividade. ArriscarÍamos dizer também, já noutro sentido, que é na experiência da clínica que o sujeito se confronta com as suas próprias ficções e também onde seu desejo se revela.